Citações kantianas

28 de maio de 2012

O sabor agradável de um vinho não pertence às propriedades objetivas desse vinho, portanto, de um objeto, mesmo considerado como fenômeno, mas à natureza especial do sentido do sujeito que o saboreia. As cores não são propriedades dos corpos, à intuição dos quais se reportam, mas simplesmente modificações do sentido da vista que é afetada pela luz de certa maneira.

 

O sabor e as cores não são, de modo algum, condições necessárias pelas quais unicamente as coisas podem ser por nós objetos dos sentidos. Estão ligados aos fenômeno apenas como efeitos da nossa organização particular que acidentalmente se juntam.

 

O tempo é a condição formal a priori de todos os fenômenos em geral. Todos os objetos dos sentidos estão no tempo e necessariamente sujeitos às relações do tempo.

 

O tempo é, pois, simplesmente, uma condição subjetiva da nossa (humana) intuição (porque é sempre sensível, isto é, na medida em que somos afetados pelos objetos) e não é nada em si, fora do sujeito.

 

O tempo, pois, não é inerente aos próprios objetos, mas unicamente ao sujeito que os intui.

 

É-nos completamente desconhecida a natureza dos objetos em si mesmos e independentemente de toda esta receptividade da nossa sensibilidade.

 

Espaço e tempo, enquanto condições necessárias de toda e experiência (externa e interna), são apenas condições meramente subjetivas da nossa intuição.

 

Extraídas de Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

 187 total views,  1 views today

Número de Visitas 2033

2 Comentários

  1. Oi Paulo, tudo bem?
    Quem escreve é o amigo André. Enviei para você alguns textos que escrevi recentemente. O primeiro aborda detidamente a filosofia moral de Kant e o outro é um novo livro que escrevi e que versa sobre o amor e os demais estados de espírito relacionados. Faça uma leitura e depois me dê a sua opinião.

    Sobre Kant, pelo menos no que toca à sua teoria do conhecimento e a relação sujeito-objeto, penso que ele foi até o limite de uma tradição ou modo de pensamento que enfatiza sobremaneira a razão e o primado da consciência.

    Porém, conforme meus pensamentos, há certos elementos que foram preteridos ou até mesmo negados ao longo da tradição filosófica ocidental, e um dos principais é a intuição.

    Creio ser possível, sim, um contato com o real. Tal intermediação somente é possível por meio do desenvolvimento da intuição. É a intuição que nos faz perceber que somos parte de uma totalidade (de uma natureza) a qual se expressa e se manifesta por meio de nós.

    A intuição é algo similar a um momento de epifania e revelação. Primeiro se sente, depois se verbaliza. A intuição é a percepção imediata, clara e transparente daquilo que é.

    Se você me perguntar como eu tenho certeza daquilo que digo, eu apenas posso dizer que eu sinto isso. Sendo assim, a experiência com a verdade pode ser interpretada como sendo um sentimento, algo que apenas se sente e que somente pode ser experimentada e comprovada individualmente.

    Uma rotina de quietude, isolamento, retiro e maior contato e sintonia com a natureza, complementada por meditação e treinos de respiração pode elevar o ser humano a alcançar um maior grau de consciência e percepção, o qual facilita demais o pleno conhecimento de si mesmo e um maior conhecimento de seu entorno.

    No entanto, tal prática não deve ser concebida como uma experiência mística ou transcendental, pois é algo que deve ser universal, muito embora acabe sendo um dado que se manifesta de forma mais precisa em algumas poucas pessoas que já possuem uma sensibilidade aguçada.

    A transcendência não deve ser concebida como algo a ser alcançado fora do sujeito. A transcendência somente se dá por meio do aprofundamento da imanência, ou seja, por meio de um constante exercício de autoanálise.

    Quanto aos demais aspectos das filosofia de Kant, creio eu que ele fez uma “colcha de retalhos” à luz da experiência e do conhecimento de seu tempo, os quais, com o desenvolvimento da ciência, já se mostraram superados.

    Talvez a maior evidência do que foi dito é que Kant destaca que as condições a priori de toda a experiência são o tempo, o espaço e a causalidade. Porém, com o desenvolvimento da física quântica ao longo do século, está mais do que provado que a realidade no interior dos átomos segue leis e comportamentos bem diferentes daqueles vigentes e descritos pela física mecânica tradicional, que possui origens newtonianas.

    Nesse sentido, bem destaca o psicanalista Jung, que, em prefácio ao I Ching (livro das mutações), escreveu que:
    “Nossa ciência, entretanto, é baseada no princípio da causalidade, o qual é considerado uma verdade axiomática. Mas uma grande mudança está ocorrendo em nosso ponto de vista. O que a “Crítica da Razão Pura” de Kant não conseguiu, está sendo realizado pela física moderna. Os axiomas da causalidade estão sendo abalados em seus fundamentos: sabemos agora que o que denominamos leis naturais são meramente verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções. Ainda não nos apercebemos que necessitamos do laboratório com suas decisivas limitações para demonstrar a validade invariável das leis naturais. Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito diferente: o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o processo, tanto assim que, em circunstâncias naturais, uma seqüência de fatos que esteja em absoluta concordância com leis específicas constitui quase uma exceção.”

    Na biologia apresenta-se uma situação similar, uma vez que está cada vez mais patente o império do acaso, da incerteza e da necessidade em detrimento da causalidade. Nesse sentido, conferir Jacques Monod, “O acaso e a necessidade”.

    Desse modo, a filosofia do conhecimento de Kant acaba se mostrando um grande equívoco, pois separa o sujeito do objeto, apresentando-os como entidades estanques. O mundo não é apenas o meu mundo, o mundo não é apenas uma construção intelectual minha intermediada pelos meus sentidos. O mundo sou eu, embora não seja somente constituído pela minha pessoa.

    Sendo assim, dá-se uma recuperação da filosofia de Hegel, uma vez que esse pensador elimina a dicotomia sujeito-objeto. Quando penso, não sou apenas eu pensando, mas o próprio mundo que pensa. Algo maior se manifesta por meio dos indivíduos. No entanto, tais não devem ser descartados em favor da preservação de uma totalidade, o que seria uma deturpação de tal pensamento.

    Sei que tudo isso é extremamente polêmico, mas estamos no mundo para isso.

    Forte abraço, André

  2. Pelo visto, vc não concorda com Flávio Kothe, que escreve:

    “Jamais o que se tem na mente pode ser ‘idêntico’ à ‘coisa como tal’, já porque são duas existências distintas e irreconciliáveis numa só. Já por isso ninguém poderia, portanto, pretender absoluta ‘adequação’, já que existe uma inadequação constitutiva.” Ensaios de semiótica da cultura. Brasília: Editora UnB, 2011, p. 56.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *